DESERÇÃO E OUTROS PROBLEMAS

Na coletânea chamada “OBRAS PÓSTUMAS”, encontramos um texto de Allan Kardec intitulado “OS DESERTORES”, onde o pensador francês analisa a deserção e outras situações problemáticas do movimento espírita de sua época.

O artigo não trata apenas de deserção, que, segundo os dicionários, é o ato de abandonar uma empreitada, um projeto, um movimento, um partido, mas também de infiltração, desânimo e discordância.

Os tipos de indivíduos que caracterizam essas ocorrências estão relacionados abaixo.

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O primeiro grupo é constituído por espíritas que desertaram por enfado ou interesses frustrados e está dividido em dois subgrupos:

a) pessoas que cansaram de se divertir com o fenômeno e não querem se aprofundar na vivência dos postulados éticos do Espiritismo;

b) pessoas que constataram que não obteriam ganhos pecuniários com a prática do Espiritismo.

Kardec os classificou como desertores típicos, totalmente dispensáveis.

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O segundo grupo é composto por falsos espíritas, comandados por inimigos do Espiritismo, que se infiltram no movimento para causarem discórdias e escândalos. Acredito que essa situação só aconteceu no tempo de Kardec, pois nunca vi ou ouvi falar de uma ocorrência dessa espécie na atualidade. Kardec não os classificou como desertores, pois eram soldados teleguiados na guerra contra o Espiritismo.

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O terceiro grupo é composto por inimigos do Espiritismo que se fazem passar por espíritas para semeaream a desunião. Meu comentário é o mesmo comentário que fiz sobre o grupo anterior. Kardec não os classificou como desertores, pois eram soldados na guerra contra o Espiritismo.

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O quarto grupo é composto por espíritas que não abandonaram as fileiras do Espiritismo, mas apresentam um declínio de ânimo na militância, em decorrência da ausência de devotamento e abnegação. Kardec diz que essas pessoas não desertam, mas desanimam, não se podendo contar com elas para o trabalho na seara espírita.

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O quinto grupo é composto por indivíduos que se afastaram do movimento por discordarem das orientações de Kardec. O pensador francês dividiu esse grupo em dois segmentos:

1- os discordantes que são guiados pela sinceridade;

2- os discordantes que são movidos pelo orgulho.

Segundo Kardec, os primeiros indivíduos não devem ser considerados desertores. Os segundos, sim. No entanto, eu acredito que a sinceridade e orgulho não podem ser utilizados como parâmetro para validação ou invalidação dos argumentos dos discordantes.

Além disso, Kardec não pode dizer que todos os elementos do segundo segmento são desertores porque algumas dessas pessoas abandonaram o círculo sob sua influência, mas continuaram acreditando nos postulados básicos do Espiritismo e os defendendo.

Por outro lado, como o pensador francês não “privatizou” o uso da palavra espiritismo, fica difícil dizer que só existe o Espiritismo fundado por Kardec.

A identificação dos limites do Espiritismo fundado por Kardec também é prejudicada pela resistência contra as expressões kardecista e kardecismo, fazendo com elas não ejam usadas, pela maioria dos espíritas, para separar alhos de bugalhos.

Por último, é preciso considerar que a palavra desertor e suas variações são muito usadas no ambiente militar e, por isso, têm uma forte conotação maniqueísta, induzindo-nos a pensar no desertor como alguém que está nos combatendo ou desajudando, ensejando uma postura fundamentalista na prática espírita, onde não estamos em guerra ou disputa com ninguém, devendo nos preocupar apenas com a capacidade e qualidade de nós próprios e de nosso time.

Por essas razões, eu prefiro chamar os indivíduos do primeiro segmento de discordantes moderados e os indivíduos do segundo segmento de discordantes radicais. Os discordantes moderadores não pretendem ombrear ou superar Kardec. Os discordadantes radicais, às vezes, não têm esse acanhamento.

 

 

 

A CLASSIFICAÇÃO DO ESPIRITISMO COMO FORMA DE CONHECIMENTO

Como classificar a doutrina fundada por Allan Kardec como forma de conhecimento, dentro dos padrões vigentes na atualidade? Essa é uma tarefa assaz difícil.

Alguns estudiosos afirmam que o Espiritismo não reúne as características de uma ciência por não respeitar o método experimental. Contudo, outros discordam dessa afirmação, lembrando que existem disciplinas que são consideradas como ciências e que também não se subordinam à metodologia experimental clássica.

Alguns estudiosos afirma que o Espiritismo não pode ser considerado como uma filosofia por estar alicerçado num processo revelatório promovido por seres desencarnados. Todavia, outros contestam essa visão, afirmando que o contributo dessas entidades obedeceu ao ordenamento de um pensador de carne e osso.

Alguns estudiosos afirmam que o Espiritismo não é uma religião por causa de sua base experimental e abertura filosófica. No entanto, outros dizem que isso não é suficiente para caracterizá-lo como uma religião.

Nesse caldeirão opiniático, vamos encontrar classificações simples e híbridas. Uma classificação simples é aquela que afirma que o Espiritismo é ciência, filosofia ou religião. Uma classificação híbrida é aquela que afirma que o Espiritismo é duas ou três formas de conhecimento ao mesmo tempo.

Seguem as classificações híbridas:

– O Espiritismo é ciência e filosofia.

– O Espiritismo é ciência, filosofia e religião.

A primeira surgiu com o próprio Kardec no livro “O QUE É O ESPIRITISMO”, quando ele afirmou que o Espiritismo é uma ciência de observação e uma doutrina filosófica ao mesmo tempo (1). A segunda foi sugerida por Leopoldo Cirne em uma palestra na FEB (2) e consolidada por Carlos Imbassahy no livro “RELIGIÕES COMPARADAS” (3).

Existem espíritas triplicistas que realmente defendem uma verdadeira equivalência entre a tríade proposta por Imbassahy e espíritas triplicistas que postulam uma maior relevância do aspecto religioso, como o Espírito Emmanuel (4). De qualquer maneira, por enquanto, os estudiosos ainda não aceitam a existência de formas híbridas de conhecimento.

Frente a todas essas dificuldades, como classificar o Espiritismo como forma de conhecimento? Recorrendo a Allan Kardec? Acredito que não, pois o próprio fundador do Espiritismo não é uma boa referência para resolvermos essa polêmica. Embora fosse o primeiro teórico espírita, Kardec foi também a primeira vítima da complexidade da doutrina organizada por ele.

Isso levou o pensador francês a conceituar o Espiritismo ora como ciência, ora como filosofia, ora como ciência e filosofia, ora também como religião – embora no “sentido filosófico” (sic) da palavra (5), uma idéia que muita gente não entendeu até hoje, incluindo eu. Por outro lado, é necessário recordar que a conceituação de ciência, filosofia e religião era menos rígida na época de Kardec, assim como a divisão entre essas três vertentes do conhecimento.

Sendo assim, na minha avaliação, a classificação do Espiritismo como forma de conhecimento deve ficar no campo da decisão pessoal, mesmo que isso nos leve a uma contradição com Kardec. Eu, após queimar muitos neurônios, decidi que, para mim, o Espiritismo é uma religião, aberta ao diálogo com a ciência, a filosofia e a arte.

NOTAS:

(1) O QUE É O ESPIRITISMO, Allan Kardec, FEB, 2a. edição, 2013, p. 8.

(2) AS RELIGIÕES DO RIO, João do Rio, José Olympio Editora, 3a. edição, 2012, p. 277.

(3) RELIGIÕES COMPARADAS, coletânea de artigos de diversos autores, Gráfica Roland Rohn & Cia, 1929, p. 146.

(4) O CONSOLADOR, Francisco Cândido Xavier e Emmanuel, FEB, 29a. edição, 2013, p. 9.

(5) REVISTA ESPÍRITA, novembro de 1869, EDICEL, p. 357.