JOÃO DO RIO E TORTEROLI

Em seu livro “AS RELIGIÕES DO RIO”, publicado em 1904, João do Rio reproduz o depoimento de um amigo, espírita e anônimo, que chamou as reuniões de Angeli Torteroli de orgias públicas (1).

Por muito tempo, perguntei-me quais seriam as razões dessa acusação. Com a disponibilização dos jornais cariocas do Século XIX na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, cheguei a algumas conclusões.

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Para início de conversa, é preciso considerar que Torteroli era um espírita singular e não entendia o Espiritismo como religião, mas como ciência e filosofia. Sendo assim, ele passava longe do comportamento beatífico que caracteriza expressiva parcela dos espíritas da corrente religiosa do movimento espírita brasileiro.

No campo profissional, Torteroli foi professor, jornalista, advogado, agenciador de emprego, dono de hospedarias e proprietário de uma companhia teatral.

Na seara espírita, Torteroli foi um pioneiro do movimento espírita carioca e nacional, médium, expositor, tradutor, redator-chefe, escritor, dirigente de centro espírita e incansável organizador de atividades unionistas.

Na área política e social, Torteroli foi defensor dos imigrantes italianos, apoiador da República, defensor dos vendedores de rua, membro de círculos operários, integrante de sociedades humanitárias, participante de várias campanhas socorristas, dirigente de caixas de assistência, dirigentes de caixas de mútuo-socorro, dirigente de caixas de pecúlio.

No trabalho beneficente, Torteroli criou a campanha “PÃO DOS POBRES”.

Além disso, Torteroli também era militante da Maçonaria, como vários espíritas da época.

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Na segunda metade da década de noventa do Século XIX, Torteroli passou a residir na Rua Silva Jardim, número 9, antiga Travessa da Barreira, perto da Praça Tiradentes, no Centro da cidade do Rio de Janeiro.

Nesse endereço, Torteroli sediou sua residência, o Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil, o Grupo Espírita Luíza Maia Torteroli (2), algumas outras instituições espíritas sem sede e seu escritório de advogacia. Existem informações que nos permitem supor que Torteroli também alugava quartos nessa casa.

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Na época, como até hoje, essa área do Centro do Rio era habitada e frequentada por um população de comportamento turbulento. Sendo assim, o quartel-general do Torteroli ficava no meio do rififi, do bafafá, como se dizia na época.

Segundo consta, as portas do misto de casa, escritório, hospedaria e instituição espírita do Torteroli sempre permaneciam destrancadas para acolher os frequentadores da região que perdiam o último bonde.

Por outro lado, as sessões mediúnicas que funcionavam no local não eram privadas, eram abertas ao público em geral.

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No final de 1898, essa confluência de fatores geraram algumas arruaças e supostas licenciosidades no quartel-general do Torteroli. Como consequência, Torteroli foi acusado pela polícia de alguns delitos e o fato ganhou grande proporção na imprensa (3).

Como era previsível, a maioria dos espíritas cariocas preferiu acreditar que Torteroli era culpado. Especialmente porque a ocorrência parecia confirmar as críticas que Bezerra de Menezes fez a Torteroli no “REFORMADOR” DE 15/11/1897.

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Entretanto, no primeiro semestre de 1899, Torteroli foi inocentado de todas as acusações pelo Poder Judiciário do Rio. Ato contínuo, Torteroli mandou publicar o comunicado “ANGELI TORTEROLI AOS ESPÍRITAS” em vários jornais cariocas (4).

Contudo, vários espíritas cariocas continuaram não acreditando na inocência de Torteroli e continuaram a acusá-lo de arruaceiro e licencioso, como fez o anônimo amigo, espírita, de João do Rio.

NOTAS:

(1) “AS RELIGIÕES DO RIO”, João do Rio, 3a. edição, Editora José Olympio, p. 217.

(2) Luiza Maia Torteroli foi a primeira esposa de Torteroli, falecida em 04/04/1894.

(3) JORNAL DO BRASIL, edição de 23/10/1898.

(4) Um desses jornais foi a GAZETA DE NOTÍCIAS, na edição de 08/06/1899.

 

 

 

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