JOÃO DO RIO E TORTEROLI

Em seu livro AS RELIGIÕES DO RIO, publicado em 1904, o escritor João do Rio (1) reproduz o depoimento de um amigo espírita, mantido no anonimato, que chamou as reuniões de Angeli Torteroli de orgias públicas (2).

Por muito tempo, perguntei-me quais seriam as razões dessa acusação. Com a disponibilização dos jornais cariocas do Século XIX na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, cheguei a algumas conclusões.

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Para início de conversa, é preciso considerar que Torteroli era um que espírita que via o Espiritismo como ciência e filosofia. Sendo assim, ele não tinha o comportamento típico de um espírita que entende o Espiritismo como religião.

Na segunda metade da década de noventa do Século XIX, Torteroli passou a residir na Rua Silva Jardim, número 9, antiga Travessa da Barreira, perto da Praça Tiradentes, no Centro da cidade do Rio de Janeiro.

Nesse endereço, Torteroli sediou sua residência, o Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil, o Grupo Espírita Luíza Maia Torteroli (3), algumas outras instituições espíritas sem sede e seu escritório de advogacia. Existem informações que nos permitem supor que Torteroli também alugava quartos nessa casa.

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Na época, essa área do Centro do Rio era habitada e frequentada por um população de comportamento turbulento. Sendo assim, o quartel-general do Torteroli ficava no meio do rififi, do bafafá, como se dizia na época.

Segundo consta, as portas do misto de casa, escritório, hospedaria e instituição espírita do Torteroli sempre permaneciam destrancadas para acolher os frequentadores da região que perdiam o último bonde.

Por outro lado, as sessões mediúnicas que funcionavam no local eram abertas ao público.

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No final de 1898, essa confluência de fatores gerou algumas arruaças e supostas licenciosidades no quartel-general de Torteroli. Como consequência, Torteroli foi acusado pela polícia de alguns delitos e o fato ganhou grande proporção na imprensa (4).

No primeiro semestre de 1899, Torteroli foi inocentado de todas as acusações pelo Poder Judiciário da cidade do Rio de Janeiro. Após a absolvição, Torteroli mandou publicar o comunicado ANGELI TORTEROLI AOS ESPÍRITAS em vários jornais cariocas (5).

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Talvez, os fatos relatados possam explicar a antipatia que o amigo do João do Rio tinha pelas reuniões do Torteroli.

 

NOTAS:

(1) Pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, jornalista, cronista, escritor, tradutor, teatrólogo e membro da Academia Brasileira de Letras.

(2) AS RELIGIÕES DO RIO, João do Rio, 3a. edição, Editora José Olympio, p. 290.

(3) Luiza Maia Torteroli foi a primeira esposa de Torteroli, falecida em 04/04/1894.

(4) JORNAL DO BRASIL, edição de 23/10/1898.

(5) Um desses jornais foi a GAZETA DE NOTÍCIAS, na edição de 08/06/1899.

 

 

 

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