O TRÍPLICE ASPECTO DO ESPIRITISMO

Existem algumas expressões que não foram criadas por Allan Kardec, mas acabaram sendo creditadas ao emérito pensador francês.

O processo acontece da seguinte maneira:

a)  alguém cria uma expressão;

 b) a expressão cai no gosto coletivo;

c) por falta de conhecimento, as pessoas creditam a expressão a Kardec.

Um desses casos é a expressão tríplice aspecto do Espiritismo, que jamais foi exarada por Kardec.

O pensador francês apenas afirmou que o Espiritismo tinha três aspectos aspectos distintos e complementares, conforme vemos abaixo:

“O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o fato das manifestações, os princípios de filosofia e moral que delas decorrem e o da aplicação desses princípios” (1).

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Em 1897, a REVISTA ESPÍRTA DO BRASIL, órgão do Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil, passou a publicar uma coluna intitulada CIÊNCIA, FILOSOFIA E MORAL (2).

Acredito que o responsável pela seção tenha montado essa tríade com base na tripartição proposta por Kardec, fazendo a seguinte correlação:

a) manifestações: Ciência;

b) princípios de filosofia e moral: Filosofia;

c) aplicação desses princípios: Moral.

O Centro da União Espírita era o reduto dos espíritas ditos “científicos”, os adeptos de Kardec que não aceitavam que o Espiritismo tinha um aspecto religioso. A instituição era dirigida por Angeli Torteroli.

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Em 1904, Leopoldo Cirne disse o seguinte num discurso proferido na FEB:

“… as obras ditas fundamentais (de Allan Karde) (…) reúnem o tríplice aspecto de Ciência, Filosofia e Moral ou Religião” (3).

 Segundo Cirne, o terceiro aspecto do Espiritismo poderia ser a Moral ou a Religião.

Até agora, essa foi a utilização mais antiga da expressão tríplice aspecto que encontrei em livros e periódicos.

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Em 1929, Carlos Imbasssahy defendeu que o terceiro aspecto deveria ser apenas a Religião:

“Há que encarar o Espiritismo sob o seu tríplice aspecto: o de Ciência, o de Filosofia e o de Religião” (4).

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Em 1939, Emmanuel avalizou o modelo de Imbassahy com a ressalva de que o aspecto religioso deveria ter prevalência sobre o aspecto científico e o aspecto filosófico:

— No seu aspecto científico e filosófico, a Doutrina será sempre um campo nobre de investigações humanas (…). No aspecto religioso, todavia, repousa a sua grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus Cristo …” (5).

 

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De minha parte, eu discordo que o Espiritismo tenha o tríplice aspecto de Ciência, Filosofia e Religião ou o tríplice aspecto de Ciência, Filosofia e Moral. Na minha avaliação, o Espiritismo é  uma religião que flerta com a Ciência e a Filosofia. 

 

NOTAS:

(1) O LIVRO DOS ESPÍRITOS, Conclusão, Item VII, primeiro parágrafo, FEB Editora, 4a. edição, 2013, página 455, tradução de Evandro Noleto Bezerra.

(2) A seção foi publicada de agosto de 1897 até o fim da revista.

(3) AS RELIGIÕES DO RIO, João do Rio, José Olympio Editora, 3a. edição, 2012, página 277.

(4) RELIGIÕES COMPARADAS, coletânea de artigos de diversos autores, Gráfica Roland Rohn & Cia, 1929, página 146.

(5) O CONSOLADOR, Francisco Cândido Xavier e Emmanuel, FEB Editora, 29a. edição, 2013, página 9.