ANTES E DEPOIS DO CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS

É consenso histórico que espíritos com aparência afroindígena se manifestavam nas reuniões de macumba (1) promovidas na cidade do Rio de Janeiro no final do Século XIX.

Recentemente, o pesquisador Renato Henrique Guimarães Dias afirmou que esses espíritos também se manifestavam em centros espíritas kardequianos antes que a Umbanda fosse fundada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas em 1908.

Diz Dias:

“Em fins do Século XIX, médiuns de alguns centros espíritas (kardecistas) brasileiros começaram a receber incorporações de espíritos que se apresentavam como ameríndios, mestiços, africanos ou negros brasileiros, muito dos quais, durante suas manifestações, mantinham seus médiuns de pé, e, vez por outra, andando pelo recinto, ao invés de sentados em uma cadeira. Embora fossem aceitas em alguns centros espíritas (kardecistas) à época, tais práticas estavam longe de ser a norma e seriam, com o tempo, consideradas não doutrinárias” (2).

Os relatos  demonstram que a manifestação de espíritos com aparência afroindígena acabaram sendo coibidas nos centros espíritas mais ortodoxos, como é o caso da instituição onde o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou pela primeira vez.

Prossegue Dias:

“Os centros espíritas que permitiam tais incorporações em suas sessões estavam criando, ainda que de forma inconsciente, um movimento dentro do Espíritismo (kardecista) brasileiro que aceitava a manifestação de espíritos cuja encarnação havia ocorrido entre a população mais pobre do Brasil. Esse movimento iria crescer com o passar do tempo, incentivado por espíritos e médiuns, e acabaria por romper com aquele, dando origem a Umbanda em 1908” (3).

Os relatos demonstram que alguns  centros espíritas kardequianos que não coibiram a manifestação de espíritos com aparência afroindigena, acabaram se tornando casas híbridas — meio kardequianas, meio umbandistas — ou acabaram se transformando em casas de Umbanda.

O fato histórico indiscutível é que houve uma “invasão” estupendamente massiva de espíritos com aparência afroindígena nas reuniões de macumba e nas sessões mediúnicas dos centros espíritas kardequianos.

Daí, decorrem várias questões…

Por que esses milhares de espíritos com aparência afroindígena decidiram se valer da forte presença da mediunidade no povo brasileiro para ajudarem os encarnados em suas aflições, ao invés de só se dedicarem ao seu próprio processo evolutivo na dimensão espíritual?

Todos esses espíritos foram realmente índios, negros velhos e outras entidades do panteão afroindígena? Se não foram, por que assumiram essa aparência?

Esses espíritos agiram de moto próprio  ou obedeciam às diretrizes de alguma liderança? Essa liderança era o Caboclo das Sete Encruzilhadas? Ou o Caboclo das Sete Encruzilhadas só apareceu para tentar colocar ordem na “invasão”? O Caboclo das Sete Encruzilhadas agiu por si ou obedecia a uma ordem dos espíritos que  coordenam a evolução espiritual do Brasil?

Por que os espíritos que coordenam a evolução espiritual do Brasil permitiram a manifestação de milhares de espíritos com aparência afroindígena e a consequente fundação da Umbanda pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas se o Espiritismo kardequiano vicejava com muita força no Brasil?

Particularmente, acredito que só obterei as respostas a essas perguntas quando desencarnar.

NOTAS:

(1) Ver o texto “MACUMBA  E UMBANDA”, publicado neste blog em 21/04/2019.

(2) “REGISTROS DE UMBANDA”, Renato Henrique Guimarães Dias, edição do autor, Rio de Janeiro, 2013, página 109.

(3) Idem.

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